sábado, 6 de julho de 2013
O resgate da esperança - Pr Carlos Queiroz
O Evangelho, por natureza, é de dificil comercialização. Não se consegue vender virtudes; jamais conseguiremos vender o projeto da cruz
Tenho caminhado por muitos lugares e visitado igrejas das mais variadas confissões. E tenho presenciado manifestações inconfundíveis do verdadeiro Evangelho. O Evangelho é, por natureza, de difícil comercialização. Não se consegue vender virtudes; jamais conseguiremos vender o projeto da cruz, ou alienar por determinada quantia o perdão divino. Quem, afinal, pagaria para entregar a face ao perverso? Quantas pessoas estariam dispostas a pagar para sofrer por amor a Cristo? Quantos de nós pagaríamos para nos engajar na causas pela justiça? E quantos ricos aceitariam o Evangelho se tivessem que entregar metade dos seus bens aos pobres e ainda pagar, quatro vezes mais, àqueles a quem houvessem defraudado?
Encontro comunidades que vivenciam com profundidade a natureza do Evangelho. Uma delas é a Igreja Batista de Bultris, em Olinda (PE). É uma comunidade de pessoas, em sua maioria, pobres. Por opção, aqueles crentes construíram um templo sem janelas e portas, com o único propósito de servir como espaço de abrigo aos transeuntes sem-teto. Ali, os empobrecidos do bairro são acolhidos. A congregação participa dos conselhos municipais e possui núcleos para formação de bancos comunitários em parceria com entidades de educação e serviço para empreendedores pobres. A igreja em Bultrins promove anualmente um fórum de prática e reflexão teológica para representantes de várias comunidades cristãs do Nordeste – assim, consegue passar essa visão e influenciar a vida de muitas outras pessoas.
Conheço de perto também a organização Crianças do Brasil para Cristo, o CBC, formada por membros de várias igrejas em Fortaleza (CE). O CBC não recebe apoio de nenhuma instituição internacional. Todo custo para apoio escolar, alimentação e socialização de crianças e adolescentes através de atividades esportivas e culturais são provenientes de doações individuais e serviços voluntários, beneficiando mais de 300 menores. Vários daqueles jovens ingressaram na universidade; outros abandonaram a violência e retomaram o caminho dos estudos.
Trata-se de pequenas iniciativas? Por certo. Mas, somadas, elas podem nos surpreender por seus resultados. Sem dúvida alguma, os cristãos têm potencial para fazer muito mais. Há ainda muitos recursos sub-utilizados. Os dados estatísticos nos indicam que a grande massa evangélica brasileira é ainda composta pela soma das pequenas comunidades, e não pelos grupos evidentes na mídia. Elas estão distribuídas nas periferias urbanas; nas encostas dos morros; nas regiões ribeirinhas; no semi-árido nordestino. São crentes em Jesus que moram à beira do caminho – à margem dos direitos e à beira da miséria; à margem dos hospitais e à beira da morte; à margem das escolas e à beira da ignorância; à margem do trabalho e à beira da fome.
Por outro lado, esta parte do Corpo de Cristo permanece à margem da competitividade, mas diante da solidariedade; à margem da acumulação, mas vizinha da partilha; à margem do lucro, mas próxima da gratuidade; à margem do individualismo, mas de braços abertos para a fraternidade. Eles me ajudam a interpretar e entender a manjedoura, a encarar o sofrimento, a encontrar no calvário sinais de vida e ressurreição. Eles podem me trazer lembranças das coisas que resgatam a esperança da vida. Deus continua se revelando de maneira estranha e em lugares imprevisíveis – e nós não percebemos. 11-10-2007
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Por uma cultura de paz - Pr Carlos Queiroz
O novo ser humano começa na descoberta de um mundo interior
Findo o caso Nardoni – com a condenação do casal que atirou pela janela a menina Isabella, crime que chocou o país há dois anos –, um novo episódio brutal mobiliza a fúria popular. Agora, a bola da vez é a promotora de Justiça aposentada que massacrou a criança de dois anos que pretendia adotar. Ainda não se sabe como o caso irá terminar, mas seu desenrolar já fez a opinião pública praticamente esquecer o horror das crianças perfuradas com agulhas ou os abusos sexuais cometidos por sacerdotes. É, de denúncia em denúncia, de crime em crime, a sociedade brasileira vai se acostumando à violência, inclusive aquela praticada contra menores.
Quando banalizamos a vida, permitimos que as mais variadas formas de violência façam parte de nossa rotina. Ela vira uma cultura, uma prática social aceita e natural. Pessoas, grupos sociais e instituições são conduzidos a se agredirem mutuamente, a tomarem à força os bens e o patrimônio de outros, a buscarem pelo abuso do poder a dominação, a humilhação e exploração do próximo. No Brasil, ela se manifesta em todos os espaços – na família, nas ruas, nas instituições religiosas, nos partidos políticos. A praga da violência brasileira contaminou a linguagem, o humor, a letra das músicas, as expressões étnicas, os esportes. O que dizer, por exemplo, da onda de baderna e brutalidade que tomou conta das torcidas organizadas de futebol? A violência já não é mais tema exclusivo de segurança pública; é questão de saúde, demanda de interesse da ética e da espiritualidade humana.
Diante disso, o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado em 18 de maio, passou despercebido para a maioria das pessoas. Mas algumas iniciativas mostram que a cultura de paz, se incentivada por todos, pode florescer neste país. Há que se celebrar a ousadia dos meios de comunicação no apoio para identificação dos lastimáveis casos de violência, principalmente contra menores, e a atitude de agentes públicos que, em suas atividades, cumprem seus papéis com responsabilidade, praticando a justiça. Ou as iniciativas da sociedade civil organizada na luta pela implementação plena do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), evidenciada na elaboração de políticas públicas e na efetivação de programas de proteção e projetos sócio-educativos para nossas crianças e adolescentes. Tudo indica que há sinais de esperança.
Os seguidores de Jesus Cristo foram sempre habilidosos construtores da paz. O exemplo do Filho de Deus foi inspiração para homens e mulheres como Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Tereza de Calcutá, João da Cruz e muitos outros. A criança, na cultura do Evangelho anunciado por Jesus, foi sempre prioridade, referencial de singeleza e pureza. No Brasil, país considerado cristão – a maior nação católica do mundo, a segunda maior em número de evangélicos –, não é possível aceitar mais a vergonha de observar passivamente as denúncias de maus tratos e violência das mais variadas formas contra nossas crianças e adolescente indefesos.
Se, de um lado, repudiamos essas sementes desumanas da violência praticadas por pessoas cínicas ou enfermas emocionalmente e espiritualmente, precisamos, por outro, propor soluções. Nosso Senhor Jesus Cristo semeou a paz, e por isso mesmo foi chamado de Príncipe da paz. Seus seguidores devem fazer a mesma peregrinação, o mesmo instrumento de paz, conforme São Francisco registrou magistralmente em sua oração.
Naturalmente, a sociedade globalizada do século 21 exige instrumentos que interfiram na violência conjuntural, econômica e social. Precisamos, como povo, descobrir novos mecanismos de mobilização social, disseminando valores e informações que possam fecundar a paz. Mas, acima de tudo, continuo acreditando que o novo humano começa na descoberta de um mundo interior, potencialmente capaz de transformar todas as nossas relações sociais, políticas e econômicas. Somos todos habitantes de uma mesma casa, e em família é melhor se viver em paz. - 26-07-2010
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Ig Evangélica Avivamento Biblico de Araraquara - Pr Carlos Queiroz
Conferencia Missionaria 21-11-2010
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Hidroteologia, contemporânea como a vida - Pr Carlos Queiroz
Sem amor ao próximo, sem promoção de justiça e, conseqüentemente, sem paz na sociedade, nossa teologia será árida e infértil.
A transposição das águas do Rio São Francisco é um dos temas mais polêmicos da agenda brasileira. O projeto, em resumo, destina-se a desviar enormes trechos do Velho Chico para áreas de seca – contribuindo, teoricamente, para a solução do centenário drama nordestino da escassez de água –, e é bandeira prioritária do governo Lula. Os principais argumentos a favor da obra giram em torno da possibilidade de irrigar 300 mil hectares de terras e transformar o sertão em um pólo agrícola, sobretudo de fruticultura, gerando empregos e renda para a região. Doze milhões de pessoas seriam beneficiadas em 268 cidades, de centros urbanos como Campina Grande (PB) e Caruaru (PE) a pequenas vilas encravadas no agreste.
Recentemente, o bispo católico Luiz Cappio, com sua greve de fome contra o projeto, chamou a atenção da opinião pública brasileira e internacional para o que considera um equívoco. No entender do religioso, a transposição vai causar mais problemas que soluções. Minha história de vida, juntamente com o trabalho na Visão Mundial, me propiciam uma vocação pastoral marcada pela poeira e pelo sol escaldante do meu querido sertão. Sinto o pó de argila impregnado aos dedos, amolgados pelo atrito das pedras nas sandálias de camponeses pobres. Nas épocas de estiagem, observo o vento morno acariciando as resistentes folhas de carnaúba. A cor cinza da caatinga, formada por gravetos secos, está sempre tatuada na minha memória.
Ao contrário do que se diz, a natureza presenteou o nosso Semi-árido de paisagens verdes alimentadas por recursos hídricos. Deus concedeu ao Nordeste brasileiro precipitações pluviométricas privilegiadas, um dos solos mais férteis do planeta e uma excelente incidência solar. A combinação destes fatores torna algumas áreas da região um centro atrativo para grandes produtores. No Nordeste, é possível se extrair grandes safras e manter rebanhos bem alimentados. Todavia, ali mesmo, encontro multidões de sofredores. Caso de dona Francisca, que vive a seis quilômetros das margens do São Francisco – mas não pode oferecer um litro de água à cabra, “mãe leiteira” dos seus 11 filhos. Num misto de humor e indignação com a privação ou privatização da água, ela disse que não chorava porque não tinha mais água nos olhos.
O nosso problema não é apenas de seca, nem será resolvido desviando-se bilhões de metros cúbicos de água. Temos um drama de acumulação de bens e concentração de terras e mananciais nas mãos de poucas pessoas, protegidas por cercas de arame farpado intransponíveis. Acontece que, com menos investimento do que o planejado para a transposição do Velho Chico, pode-se fazer uma reforma agrária mais conseqüente, implementando a agricultura familiar sustentável. Bastaria melhorar pequenos açudes já existentes, montar barragens subterrâneas, continuar construindo cisternas para uso familiar nas pequenas propriedades de Franciscos e Franciscas.
Antes de se pensar em mudar o curso de um rio, precisamos de uma mudança de paradigma: priorizar o que fazer em cooperação com o pequeno agricultor, para melhorar sua capacidade de produção. Seus projetos não agridem o meio ambiente e, se tecnicamente bem orientados, são potencialmente mais sustentáveis. Precisamos de uma reforma agrária e agrícola – e, na teologia, devemos entender que o tema em questão é sobre a nossa responsabilidade com tanta água que Deus manda para os nordestinos. Entre a nossa hidroteologia que estuda somente sobre a quantidade de água a ser usada para o batismo – se por imersão ou aspersão –, precisamos optar por uma teologia que equacione o problema da justiça quanto ao uso de água no planeta. Sem amor ao próximo, sem promoção de justiça e, conseqüentemente, sem paz na sociedade, nossa teologia será árida, infértil e não sinalizará a utopia possível do Reino de Deus.
Que os rios de justiça sejam transportados do coração de mulheres e homens de bem. Parafraseando a linguagem hidroteológica do profeta Amós, pedimos a Deus que “a retidão corra como um rio, a justiça como um ribeiro perene”.
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Ig Presbiteriana Betânia em São Francisco Niterói-RJ - Pr Carlos Queiroz
A Chave Para a Liberdade
A Morte Como Ponto Final da Corrida
A Morte Como Ponto Final da Corrida
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