sábado, 6 de julho de 2013

Pai Nosso e pão nosso - Pr Carlos Queiroz

A falta de pão na mesa do pobre é um problema decorrente da falta de espiritualidade no altar dos cristãos. O Pai Nosso é a oração pelo pão de cada dia do outro e não do nosso.
A oração do Pai Nosso é, ao mesmo tempo, a oração do “pão nosso de cada dia”. O pedido por esse pão não é um apelo para o suprimento material. Jesus Cristo já havia ensinado aos seus discípulos a não se preocuparem com o alimento. Também já se conhecia a ideia de que Deus dá o pão aos seus amados enquanto eles dormem, de acordo com o Salmo 126. Conforme Jesus Cristo, a natureza se encarrega de suprir a carência das aves dos céus e dos lírios do campo; se Deus assim supre os pequenos animais e os vegetais, há, então, suprimento suficiente para todas as pessoas do planeta. Como sabemos, o problema da falta de alimento para muitos não se deve à superpopulação ou à falta de solos aráveis. A monocultura, a exploração do semelhante e a concentração de renda, entre outros fatores, geram a fome e a miséria que têm vilipendiado tanta gente. Portanto, na oração do Pai Nosso, o pedido não é pelo pão – e sim, pela prática da socialização do pão.
O alimento é um direito de todos os seres humanos. Quando uma minoria detém a maior parte dos bens, outras pessoas irão padecer necessidade. O problema da desnutrição, para muitos, está na má utilização dos recursos naturais, quando se visa apenas ao lucro e ao acúmulo de capital, o que também leva à degradação do meio ambiente. Logo, o Pai Nosso não é uma prece para ser meramente repetida em nossas liturgias; ela é a oração sobre a ética da propriedade e dos bens.
Para Jesus Cristo, vale mais uma vida eticamente correta do que a oração corretamente pronunciada. Há muitos cristãos orando o Pai Nosso sem, contudo, expressar o reconhecimento – muito menos, o arrependimento – de que estão pondo muitas pessoas sob o castigo da fome e da morte. E é por causa de nosso egoísmo, revelado quando comemos muito e deixamos outros com fome, que há muitos doentes e mortos em nosso meio. Não discernir essa realidade significa comer e beber juízo para si, conforme I Coríntios 11.23-27. Para muitos de nós, o Pai Nosso pode ser compartilhado e dividido; mas o pão, esse não – é exclusivamente “meu”. Ele é o ídolo que só na reza ou na burocracia religiosa pertence ao outro. O máximo que fazemos é uma doação filantrópica de nossas sobras. E, se damos a sobra, apenas denunciamos o nosso contexto de injustiça. É hipocrisia doar a sobra como se fosse um ato de misericórdia. A misericórdia se evidencia pela doação daquilo que nos faz falta.
Todo ídolo exige sacrifício. O ídolo de mercado, representado pela acumulação de propriedades e rendas, vive guardado no altar sagrado dos cofres bancários, venerado pelos seus adoradores, os mesmos que sacrificam os mais fracos e vulneráveis da sociedade. No Brasil, o pão é de uma minoria. Mais de 32 milhões de pessoas passam fome, e 65 milhões de brasileiros alimentam-se de forma precária. O pão é um bem que pode ser acumulado ou socializado; por isso, a oração do Pai Nosso tem implicações econômicas, sociais e políticas. Orar ao Pai do céu pelo pão de cada dia é uma premissa contra a acumulação de bens. O mundo seria diferente se todos os cristãos fizessem do Pai Nosso uma prática de justiça, solidariedade e socialização do pão.
O Pai Nosso é a oração pelo pão de cada dia do outro. É a oração que muda a concepção fundiária e subverte a noção de renda ou posse dos bens. Portanto, é muito mais do que um jeito de orar – é, de fato, uma maneira de se viver. O bem-aventurado pobre de espírito, citado em Mateus 5.3, vive motivado pela sensibilidade e pela compaixão, e tem prazer em socializar com outras pessoas tanto o Pão da Vida quanto o pão da terra. Além do mais, o bem-aventurado pobre de espírito é também feliz porque sente fome e sede de justiça. E essa sua fome, essa sua sede, são aguçadas diante da fome sofrida pelos injustiçados.
Não podemos mais admitir que nosso país – o maior em número de católicos e o segundo maior em número de protestantes – seja um dos países mais injustos do planeta. A falta de pão na mesa do pobre é um problema decorrente da falta de espiritualidade no altar dos cristãos. A carência de alimento passa a ser um sinal de nossa falta de espiritualidade à medida que o outro não o tem. Que o Pai do céu nos ajude a socializar o pão da terra.

5 comentários:

Lucas Vilas Boas disse...

ouvi essa palavra na Conferencia Livres 2014...benção d+ pastor...Que Cristo coloque nos nossos corações e mentes essa visão...de amor ao proximo

Blogue da Turma de Direito da FAC São Luís-2009 disse...

Neste mundo onde campeiam a soberba, o orgulho, a vaidade, o egoísmo etc, devemos agradecer a Deus pelo privilégio de vermos que ainda há pessoas que conseguem refletir um tanto da imagem transmitida pelo Deus-Filho.
O senhor, pastor Carlinhos (permita-me a intimidade), é uma dessas pessoas.
Digo isso, não por sua aparência serena ou pela suavidade da sua voz. Refiro-me à sinceridade que percebo brotar do seu âmago quando o senhor fala do Jesus Cristo de Nazaré; refiro-me à honestidade teológica expressada nas suas palestras e pregações.
Até os meus 47 anos de idade eu achava que era ateu. Hoje, 2 anos depois de conhecer a Cristo, mesmo convivendo com turbilhões de questões inquietantes sobre como encontrar o Caminho, quando o ouço (no Youtube) sinto-me aminado a buscar mais e mais sobre esse Deus que nos impele a amar o outro em detrimento das nossas paixões, das nossas preferências pessoas.
Agradeço a Deus porque Ele o pescou. Agradeço a Deus por permitir que eu tenha a possibilidade de ouvi-Lo através da sua boca.
Que o Senhor Jesus Cristo de Nazaré lhe conceda vida longa, força física e perseverança para continuar a amimar os filhos de Deus a buscá-Lo.
Amém.

Gracílio Cordeiro Marques disse...

Neste mundo onde campeiam a soberba, o orgulho, a vaidade, o egoísmo etc, devemos agradecer a Deus pelo privilégio de vermos que ainda há pessoas que conseguem refletir um tanto da imagem transmitida pelo Deus-Filho.
O senhor, pastor Carlinhos (permita-me a intimidade), é uma dessas pessoas.
Digo isso, não por sua aparência serena ou pela suavidade da sua voz. Refiro-me à sinceridade que percebo brotar do seu âmago quando o senhor fala do Jesus Cristo de Nazaré; refiro-me à honestidade teológica expressada nas suas palestras e pregações.
Até os meus 47 anos de idade eu achava que era ateu. Hoje, 2 anos depois de conhecer a Cristo, mesmo convivendo com turbilhões de questões inquietantes sobre como encontrar o Caminho, quando o ouço (no Youtube) sinto-me aminado a buscar mais e mais sobre esse Deus que nos impele a amar o outro em detrimento das nossas paixões, das nossas preferências pessoas.
Agradeço a Deus porque Ele o pescou. Agradeço a Deus por permitir que eu tenha a possibilidade de ouvi-Lo através da sua boca.
Que o Senhor Jesus Cristo de Nazaré lhe conceda vida longa, força física e perseverança para continuar a amimar os filhos de Deus a buscá-Lo.
Amém.

marco carrara disse...

Perfeito!

marco carrara disse...

Perfeito!

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